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quarta-feira, 25 de março de 2015

O Cristianismo e as Perdas – Parte 2

Falar de perdas não é tão simples, principalmente em uma era onde há um verdadeiro culto ao consumo. A teologia pregada nas igrejas de nosso tempo dão grandes ênfases às possibilidades do ter e ao sucesso. Fazendo com que as pessoas busquem desenfreadamente o sucesso, querendo luzes para si para poder mostrar o que elas possuem.

Todavia, o Evangelho vai na contramão desse discurso e o cristão é chamado a sinalizar essa mensagem de Deus.

Vejam quantos medos estão relacionados à perda, temos medo de envelhecer, medo de viver, medo de morrer, e tudo isso relacionado ao medo de perder.

O ciclo da vida nos colocará diante de todas essas situações. Serão momentos de perdas e de crises. Mas são momentos que se vivenciados de forma saudável, produzirá crescimento e descobertas de novas oportunidades. Ou se vivenciadas de forma não saudável, produzirá fechamento, destruição e morte.


Uma pessoa adulta que se recusa a assumir o processo de maturidade sempre terá uma atitude infantilizada. Sempre quererá unir-se aos adolescentes, vestir-se como eles e fugir em assumir seu papel de referencial para os mais jovens.

Como eu disse na postagem anterior: “Perdas fazem parte do processo de nossa existência”. Está inerente ao processo do viver do ser humano. Na Psicanálise o luto é caracterizado como uma perda de um elo significativo entre uma pessoa e seu objeto, portanto, um fenômeno mental natural e constante no processo de desenvolvimento humano.

Jesus nos diz que para seguí-Lo temos que abrir mão de muitas coisas, e entra essas coisas está a nossa própria vida, leia Lucas 17.25.

Negar a perda é fugir da realidade, portanto é preciso refletir o quanto estamos negando essa realidade. Negar as perdas é negar a morte, não somente a física como aquelas que temos em nosso dia-a-dia.

Nossa existência não é uma linha reta, existem altos e baixos, existem curvas, e precisamos aprender a lidar de forma saudável com isso. E isso não nos afasta de Deus, pelo contrário, se tivermos a capacidade de incorporar as perdas em nossa vida de forma saudável, teremos maior compreensão e experiência do grande amor de Deus. Pois quando somos capazes de incorporar as perdas e as crises sabendo como lidar com elas, e compreendendo que elas fazem parte de nossa vida, temos a oportunidade de optar em querer continuar vivendo.

Sempre temos de escolher entre um e outro caminho. E muitos morrem existencialmente quando ficam presos ao luto do qual não querem se afastar.

As reações comuns ante as perdas são a negação e a incredulidade. São as primeiras atitudes, mas, que se espera que não durem muito, pois, a própria realidade deve nos ajudar a reconhecer que o que aconteceu é real e não uma fantasia. Nesse momento é comum sentir angústia, ter alteração no comportamento, haver uma desorganização pessoal, levando até mesmo a uma somatização, devido as grandes emoções internas.

Diante de tudo isso a pessoa tem o direito de manifestar a sua dor e seus sentimentos, e não necessariamente implica em passar por essa etapa em resignação e silêncio. Para vivenciar este momento e passar por essa etapa a pessoa tem o direito de manifestar sua dor, sua raiva e seus sentimentos. Aquele que pede para que a pessoa não chore esta impedindo esse direito que é do outro, e que faz parte do processo de perda. Isso será útil para a superação e na aprendizagem de lidar de forma saudável com a perda. E a superação necessita de tempo.


A Psicologia nos ensina que há cinco fases no luto, são elas: primeira fase, a negação, como já vimos. A segunda é a fase da raiva, onde a pessoa expressa raiva por aquilo que ocorre. A terceira é a fase da negociação, essa negociação geralmente acontece dentro do próprio indivíduo ou às vezes voltada para à religiosidade. É uma tentativa de fazer com as coisas possam voltar a ser como antes. Promessas, pactos e outros similares são muito comuns e muitas vezes ocorrem em segredo. Na pratica a coisa funciona mais ou menos assim: Rezar e fazer um acordo com Deus. Buscar agradar, se for um caso de uma traição, e ter pensamentos do tipo: “Vou acordar cedo todos os dias, tratar bem as pessoas, parar de beber, procurar um emprego e tudo ficará bem”. A quarta fase é a fase da depressão, nessa fase ocorre um sofrimento profundo. Tristeza, desolamento, culpa, desesperança e medo são emoções bastante comuns. É um momento em que acontece uma grande introspecção e necessidade de isolamento. A pessoa quer chorar, afastar-se dos demais, e ter comportamento autodestrutivo. É comum ter pensamento do tipo: “Eu me odeio”. E por fim vem a fase da aceitação, onde se percebe e se vivencia uma aceitação do rumo das coisas. As emoções não estão mais a flor da pele e a uma prontificação a enfrentar com consciência as suas possibilidades e limitações. A pessoa busca ajuda para resolver a situação, conversa com outros sobre o assunto e planeja estratégias para lidar com a questão. É comum ter pensamentos do tipo: “Não é o fim do mundo”, “Posso superar isso”, e assim por diante.

Mas como já vimos anteriormente, as pessoas não passam por essas fases de maneira linear, ou seja, elas podem superar uma fase, mas depois retornar a ela, aquele famoso ir e vir, outros podem estacionar em uma delas, sem ter avanços por longo período ou ainda suplantar todas as fases rapidamente até a aceitação. Não há regra. Tudo depende do histórico de experiências da pessoa e crenças que ela tem sobre si mesma e sobre a situação em questão.

Tem pessoas que podem passar meses ou anos num vai e vem e não chegar a aceitação nunca. Tem pessoas que em poucas horas ou dias fazem todo o processo, isso varia também em função da perda sofrida pela pessoa.

Seja como for, a questão deixada pelas Escrituras é a seguinte: “Não sobreveio a vocês tentação que não fosse comum aos homens. E Deus é fiel; ele não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar” (1 Coríntios 10:13).

A tentação aqui não é a perda e sim a vontade de se deixar dominar por ela e não a enfrentar de forma saudável. 

Que Deus lhe abençoe e ilumine sua mente para que aprenda a lidar melhor com as perdas.

Leia também:
O Cristianismo e as Perdas - Parte 1.