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Você Não é Burro — Seu Cérebro Foi Reprogramado Para Não Conseguir Ler Mais Um Livro Inteiro

  Por que você não consegue mais terminar um livro? Você já começou um livro com entusiasmo genuíno e, poucas páginas depois, sentiu uma vontade incontrolável de checar o celular? Esse fenômeno, cada vez mais comum entre adultos e jovens, não é sinal de burrice, fraqueza intelectual ou falta de disciplina. É o resultado mensurável de uma mudança estrutural profunda no modo como nosso cérebro processa informação — provocada, em grande parte, pelo consumo massivo de microvídeos. Primeiramente, precisamos reconhecer a gravidade dessa perda. A leitura profunda não é apenas hábito cultural nostálgico — ela é habilidade cognitiva complexa, construída ao longo de anos, e hoje sendo silenciosamente desmontada por um ambiente digital hostil à concentração sustentada. O que os microvídeos estão fazendo com sua capacidade de concentração? Como especialista em Letras, é impossível não lamentar o que está sendo perdido: a leitura profunda desenvolve repertório analítico, vocabulário s...

Como Uma Estalactite

Lá estava ele mais uma vez no meio daquele transito. Era a hora do rush. O dia havia sido estressante. Muitas coisas para fazer e quase nada resolvidas. Apesar disso, ele estava se sentindo numa boa.

Fechou as janelas para abafar o som que vinha da rua, ligou o ar condicionado e aumentou o volume do som numa altura agradável. Procurou se ajeitar no banco do automóvel de forma que pudesse relaxar.

Anos atrás não seria essa a forma como ele estaria se comportando. Já teria buzinado várias vezes e gritado alguns palavrões. No entanto ele se lembrou de um artigo que leu numa revista em que dizia que, para se formar uma estalactite ou uma estalagmite, são necessários cem anos para que elas aumentem um centímetro. É um processo muito lento, aonde gota a gota, vai pingando, carregando seus minerais que irão se sedimentar década após década. Ele precisaria mais de uma vida inteira para observar esse centímetro que cresceria.

Como disse Jesus ao falar sobre a ansiedade: “Ora, qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado à sua estatura?” (Lucas 12. 25).

Por esse motivo ali estava ele, recostado no banco de seu carro, ouvindo um som e sentido o gelado ar no interior do automóvel. Pois ele aprendeu que apesar de nós o tempo passa, através de nós e sem se importar quão apresado possamos estar.

Lá fora o transito se movia tão lentamente como o tempo passa para um astronauta no espaço.