Pare por um
instante e imagine a seguinte cena: duas autoridades, ocupando as mais altas
cadeiras do Judiciário de um país, trocam acusações públicas de abuso de poder.
Nós assistimos a isso não como espectadores neutros, mas como cidadãos que
sentem, na pele, o desconforto de uma instituição em crise. O que essa cena
revela sobre nós, sobre o poder e, sobretudo, sobre a condição humana diante de
Deus?
Este
7 de setembro de 2026 não foi apenas mais um Dia da Independência. Foi um
espelho. Um espelho que refletiu, em tamanho ampliado, algo que a teologia
reformada sempre nos ensinou sobre a natureza humana: nenhum ser humano, por
mais elevado que seja seu cargo, está imune à corrupção do coração.
O Escândalo Vorcaro e a Doutrina da Depravação Total
Primeiramente,
precisamos nomear o que está diante de nós. O vazamento do caso
Vorcaro, envolvendo mensagens
entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, e a reação do ministro
André Mendonça, que passou a ser investigado por Moraes em retaliação, não
são apenas fatos jurídicos. São, antes de tudo, retratos vivos daquilo que João
Calvino chamou de depravação total do ser humano.
A doutrina
reformada não ensina que o ser humano é totalmente incapaz de fazer o bem em
todas as circunstâncias, mas afirma que nenhuma esfera da existência humana —
inclusive as instituições mais respeitáveis — está livre da contaminação do
pecado. Nossa mente, por mais brilhante que seja, carrega em si a inclinação
para proteger interesses próprios antes da justiça objetiva.
Em
contrapartida, a psicanálise nos oferece uma lente complementar e reveladora.
Freud já apontava que o ego humano, quando investido de poder absoluto, tende a
mobilizar mecanismos de defesa cada vez mais sofisticados: projeção,
racionalização e negação. Quando um ministro do STF direciona investigações
contra um colega que o desafiou, não estamos vendo apenas uma disputa jurídica
— estamos vendo o ego em sua forma mais primitiva, lutando para preservar sua
própria narrativa de infalibilidade.
O Cérebro do Poder: Neurociência da Autoridade Absoluta
Todavia, seria
simplista reduzir esse fenômeno apenas à teologia ou à psicanálise. A
neurociência tem muito a nos dizer sobre o que acontece no cérebro de quem
exerce poder por tempo prolongado, sem os freios adequados de fiscalização e
prestação de contas.
Estudos sobre
neurociência do poder demonstram que a exposição contínua a posições de
autoridade máxima altera a atividade do córtex pré-frontal, região responsável
pelo julgamento moral e pela empatia. Pesquisadores como Dacher Keltner, da
Universidade de Berkeley, descreveram o chamado "paradoxo do poder":
quanto mais poder alguém acumula, menor tende a ser sua capacidade de se
colocar no lugar do outro e de reconhecer os próprios erros.
Além disso, o
sistema dopaminérgico — responsável pela sensação de recompensa — é fortemente
ativado por decisões que reforçam o controle e a validação social. Por
consequência, aqueles que ocupam cargos de poder absoluto, sem mecanismos
externos de correção, tornam-se neurobiologicamente mais propensos a decisões
movidas por autopreservação do que por princípios objetivos de justiça.
Nossa mente,
portanto, não é uma máquina neutra flutuando acima das circunstâncias. Ela é
moldada pelo ambiente, pelo tempo de exposição ao poder e pela ausência de accountability.
Isso não justifica o comportamento, mas o explica — e essa distinção é
fundamental para quem busca compreensão, e não apenas indignação.
A Resposta Bíblica: Soberania de Deus Acima das Instituições Humanas
Em resumo, até
aqui vimos o diagnóstico: pecado estrutural, ego ferido e cérebros humanos
vulneráveis à corrosão do poder absoluto. Mas a teologia reformada não nos
deixa apenas com o diagnóstico. Ela nos oferece uma âncora firme: a doutrina da
soberania de Deus sobre as nações e seus governantes.
O Salmo 75:6-7
nos declara com clareza: "Porque nem do oriente, nem do ocidente, nem do
deserto vem a exaltação. Mas Deus é o Juiz; a um abate, e a outro exalta."
Nós precisamos internalizar essa verdade em nossa rotina de leitura das
notícias: nenhuma instituição humana, por mais poderosa que pareça — nem mesmo
um Supremo Tribunal — está fora do governo providencial de Deus.
Calvino, emsuas Institutas (Livro IV, capítulo 20), tratou extensamente da questão dos
magistrados civis. Para ele, a autoridade civil é uma ordenança de Deus,
instituída para conter o caos e promover a justiça (Romanos 13:1-4). Todavia —
e este ponto é central para a teologia reformada — a autoridade delegada não é
autônoma. Ela responde, em última instância, à autoridade suprema de Deus.
Isso significa
que, quando vemos ministros trocando acusações e instituições se esvaziando de
legitimidade diante do povo, não estamos vendo o colapso do plano de Deus, mas
a manifestação visível daquilo que a doutrina reformada sempre afirmou: toda
autoridade humana é limitada, falível e sujeita ao julgamento divino.
Common Grace: Por Que as Instituições Ainda Funcionam, Mesmo Feridas
Por outro lado,
a teologia reformada também nos apresenta a doutrina da graça comum — aquela
graça não salvadora que Deus concede a toda a humanidade para conter os efeitos
totais do pecado e permitir que a sociedade, de alguma forma, ainda funcione.
É por causa da
graça comum que, mesmo em meio a essa crise sem precedentes, o Brasil não
mergulhou no caos absoluto. Há ainda mecanismos de checagem — como a
intervenção do ministro Edson Fachin, que buscou centralizar as acusações e
estabelecer prazos formais de esclarecimento. Esses mecanismos, embora humanos
e imperfeitos, são reflexos da graça de Deus operando mesmo através de
instituições feridas pelo pecado.
Nós, como
cristãos reformados, não devemos esperar perfeição das instituições humanas.
Esperar isso seria uma forma sutil de idolatria institucional. Todavia, também
não devemos cair no cinismo paralisante que despreza toda autoridade civil. O
equilíbrio bíblico está em reconhecer que as instituições são necessárias,
falíveis e, ao mesmo tempo, subordinadas a um Juiz maior.
O Espetáculo Público e a Tentação da Idolatria Política
As
manifestações do 7 de setembro, com discursos concentrados
no "Fora Moraes" e no fortalecimento de candidaturas para 2026,
revelam outro fenômeno que merece nossa atenção pastoral: a tentação de
transformar figuras políticas em messias ou em vilões absolutos.
A psicanálise
nos ajuda a entender esse mecanismo através do conceito de clivagem — a divisão
do mundo em "totalmente bom" ou "totalmente mau", sem
espaço para complexidade. Quando multidões se reúnem gritando por punições ou
exaltações de líderes políticos, muitas vezes estão projetando nessas figuras
suas próprias ansiedades coletivas, sua sede de ordem e justiça imediata.
A teologia
reformada nos adverte precisamente contra isso. Nenhum político, nenhum
ministro, nenhuma liderança religiosa deve ocupar o lugar que pertence
exclusivamente a Cristo como Rei e Juiz supremo. Colocar nossa esperança última
em qualquer figura humana — seja ela do governo ou da oposição — é repetir o
erro antigo de Israel ao pedir um rei terreno, esquecendo que já tinham um Rei
celestial (1 Samuel 8:7).
Domínio Próprio em Tempos de Caos Institucional
Portanto,
diante de tanta informação, indignação e polarização, qual é a resposta prática
que a fé reformada nos oferece para essa segunda-feira, 7 de setembro de 2026?
Primeiramente,
precisamos exercitar o domínio próprio mencionado em Gálatas 5:22-23 como fruto
do Espírito. Isso significa resistir à tentação de consumir compulsivamente
notícias com indignação reativa, permitindo que nossa mente seja sequestrada
pela dopamina do escândalo político.
Em segundo
lugar, somos chamados a orar pelas autoridades — não como endosso automático de
seus atos, mas como obediência ao mandamento de 1 Timóteo 2:1-2, reconhecendo
que mesmo instituições feridas ainda operam sob a soberania divina.
Por fim,
devemos lembrar que nossa cidadania definitiva não está em nenhuma bandeira
partidária, mas nos céus (Filipenses 3:20). As crises institucionais vêm e vão;
governos se levantam e caem; mas a Rocha sobre a qual edificamos nossa
esperança permanece inabalável.
Que possamos,
nós, atravessar este momento de turbulência política não com ansiedade
paralisante, nem com indignação vazia, mas com a serenidade de quem sabe que o
Juiz de toda a terra já está, e sempre estará, no controle.
Para nos ajudar a resgatar o foco e aprofundar nossa mente longe das distrações do feed, uma excelente recomendação: Desvendando os Segredos da Psicanálise: Uma Jornada de Autoconhecimento e Cura Emocional (Conhecendo a Psicanálise Livro 1), que detalha com precisão científica e comportamental tudo o que discutimos hoje. Mudar nossos hábitos exige ferramentas práticas.


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